Capítulo 4 - Um beijo que deixa marcas
4 de novembro de 2025 às 21:57
Mercedez desapareceu. Vários dias se passaram e não a encontrava em lugar algum, liguei para a sua mãe que morava em Cubatão e ela não tinha ido para lá. Isso deixou-me em alerta; acionei a polícia quando dera vinte e quatro horas e até o momento nada de notícias. Ela poderia muito bem estar agora rindo de mim em um quarto de hotel em frente ao mar enquanto eu estava preocupado com o seu desaparecimento no dia que desceu as escadarias do Monte Serrat.
Precisei me distrair de tudo isso, saí por aí para desacelerar meu pensamentos. Encontrei um pubzinho interessante na noite, entrei no ambiente apinhado de uma garotada mais jovem. Tentei me enturmar, mesmo que nossas idades não fossem as mesmas. Fui ao bar, peguei uma bebida e fiquei ali observando a multidão até que meus olhos se cruzaram; olhos profundos e jovens me encararam. Não era tão comum acontecer, porém quando acontecia, não desperdiçava o momento.
Deixei a bebida no balcão e dei um sinal para o banheiro, indo para lá. Essa noite, Mercedez não ficaria em meus pensamentos... essa noite seria minha!
Entrei no box, demorei ali por um instante, estava cheio de homens, esperei esvaziar, na torcida de que aquele rosto jovem continuasse por ali, à minha procura.
Assim que os passos desapareceram, saí do cubículo, assustando o rapaz do lado de fora. Esbocei meu melhor sorriso, o fitei de cima abaixo enquanto parecia estático à minha frente. Seu semblante avermelhado indicava que havia bebido um pouco.
- Você veio - acabei dizendo, em meio a um sorriso.
- Você me chamou - ele respondeu, se afastando de mim e indo de frente para os espelhos.
Sorri, fitando-o de costas.
Bela bunda, pensei comigo mesmo. Um sorriso ainda maior escapou de meus lábios, após estes pensamentos intrusivos.
- Nunca te vi por aqui... - tentei disfarçar meu semblante com uma frase comum, tentando manter a leveza da conversa.
- Clichê isso hein? - seu comentário deixou-me irritado, achei que o estivesse agradando, mesmo assim, aproximei-me com calma e próximo ao seu ouvido disse:
- Se quiser, podemos deixar minha frase clichê de lado e partir para algo mais imprevisível, o que acha?
Ter experiência de vida era um ponto a mais para mim, pois sabia usar das palavras ao meu favor.
Minhas mãos passaram pelo seu peito, um pouco apressada de mais, um pouco mais firme que o habitual, porém o rapaz deslizou-se, fazendo-me desequilibrar e cair ao chão de bunda. A idade havia me tirado anos de psicomotricidade.
O olhar do rapaz de pé me encarava, sem reação e meu sangue subiu à cabeça, constrangido pela queda.
- Você é doido cara? - falei sem pensar, tentando me levantar, porém sem sucesso.
Uma de suas mãos se estenderam, pensei por um instante em recusar, porém não estava em condições de fazer isso.
- Desculpe - ele disse inaudível, porém foi o suficiente para que meu espírito voltasse no eixo.
- É reflexo, sabe como é... - franzi o cenho sem entender o que ele queria dizer com suas palavras.
Ele se olhou por um instante e riu, como se tivesse escrito uma piada em sua camisa preta.
- Desculpe - ele me fitou tímido - é que sou policial.
Dei um pulo para trás, assustado com aquelas palavras. O que um policial estava fazendo ali àquelas horas?
- Nossa, mil perdões... não sabia que... - gaguejei, tentando me desculpar. Bati a mão em terno e me ajeitei à sua frente, de forma que parecesse mais sério, porém antes que terminasse de me ajeitar, fui puxado para junto de si, em meio a um beijo repentino. Seu perfume apesar de masculino lembrava-me do mar, das ondas e do gosto do sal.
Lágrimas, senti algo úmido em meus lábios. O rapaz estava chorando junto a mim, ele soluçava como se eu tivesse lhe feito algum mal.
O soltei, encarando-o apavorado.
- Eu fiz alguma coisa? - perguntei, assustado, procurando uma ferida em seus lábios, pois talvez meu aparelho tivesse-lhe cortado.
Ele meneou a cabeça em negativa, pôs o dedo na boca de forma sensual e voltou a me beijar. Minutos depois, senti seu corpo se acalmar junto ao meu, passei a mão em suas costas tentando reconfortá-lo e as imagens de Mercedez rondaram minha mente. Ora sorrindo, ora com o semblante misterioso, como se há tempos quisesse fugir e me pedir o divórcio.
O que eu estava fazendo? Eu estava beijando um garoto dentro do banheiro de um bar e estava gostando...nunca havia pensado na possibilidade, porém era tarde de mais, eu estava gostando e esse beijo era a única coisa boa que me acontecera nesses últimos dias.
Olhei pro meu reflexo no espelho, meus olhos azuis; pesados e tentando entender como minha vida havia me levado até aquele momento. Beijando um policial... as coisas estavam fugindo do meu controle mesmo.
- Obrigado - disse o rapaz, despertando-me de meus pensamentos. Estávamos do lado de fora do banheiro.
O encarei por um instante e ele se afastou de mim, virando para trás antes de ir embora, dizendo:
- À propósito meu nome é Pedro.
O rastro de sua voz desapareceu em meio a multidão e acabei perdendo-o de vista.
Saquei o celular do bolso, que não parava de vibrar e vi Elizabeth me ligando. Várias ligações perdidas, antes de atendê-la, saí do pub.
Na rua, liguei para o seu número e sua voz esganiçada embolou-se no viva-voz.
- Calma, - falei, fitando a rua movimentada - fala devagar.
- Estevam, precisamos conversar - sua voz tornou-se séria - é sobre a sua esposa... eu e Camila precisamos... bom, venha até minha casa, ok? Aqui eu explico melhor.
Ela desligou a ligação, após deixar-me aturdido com suas palavras.
Minha visão turvou-se e eu segui para o carro atordoado. Mercedez havia desaparecido e agora Elizabeth e minha amante queriam falar sobre ela... elas saberiam me dizer onde minha esposa estava?