Capítulo 3 - Novos olhares
4 de novembro de 2025 às 21:09
PEDRO
Ele me bloqueou, não consigo mais ligar ou mandar mensagem. Será que tudo realmente se foi de vez? Paula já pediu para que eu focasse no trabalho e que esquece por um tempo desse assunto, mas a nossa separação era tão recente, que doía no peito.
Não podia mais para tudo que fazia e ficar horas tentando ligar para ele; isso era insano de mais. Estava afetando meu lado profissional e isso era grave.
Assim que terminei o expediente na delegacia, esperei por Paula e fomos em um pub próximo à delegacia. Estávamos à paisana, vestidos casualmente. Tínhamos que descansar a mente, pois receber a notícia que havia um cadáver na orla não era uma coisa que deixávamos alegres. O dia estava pesado de mais.
Os agentes forenses entraram em ação e o que nos restava era apenas esperar pelo laudo pericial e dar continuidade às investigações. Paula estava ansiosa pelo dia seguinte, ao qual iríamos a fundo em nossa busca. Já eu, nem tanto. Meus pensamentos ainda estavam divididos.
O pub estava lotado de pessoas, tocava uma banda de rock até que legal, ouvi algumas músicas, tomei uma vodca e deixei Paula sozinha por um instante. Precisava ir ao banheiro, olhos azuis chamaram a minha atenção.
Dei a volta pelo local, passando por pessoas que dançavam na pista, outros que tentavam me puxar e eu negava educadamente. As luzes piscando coloria o escuro, deixando-me um pouco zonzo por conta do teor alcoólico ingerido.
Parei em frente ao banheiro, li a placa Masculino e adentrei o local, à procura daqueles olhos que me chamaram. Os cubículos e o mictório estavam todos sendo usados, fui à pia, lavei as mãos e joguei água no rosto. Eu vi meu reflexo; ele não negava, eu estava muito cansado. Não só do trabalho, mas da minha vida medíocre. O que eu tenho agora? Um distintivo e um gato velho dentro de casa que só servia para arranhar minha poltrona.
Muitas coisas iriam mudar, só o que me faltava era o meu ex ir em casa e reivindicar meu gato, apesar de velho, eu o amava mais que tudo. De forma alguma deixaria que levasse, ou voltava comigo ou ficaria sem meu bichano.
Saquei o celular do bolso e a primeira coisa que fiz, com a raiva nos pulsos, foi apagar de vez o contato dele e que se era pra esquecer, esqueceria com estilo. Quando o banheiro esvaziou-se , procurei pelos box o rapaz de olho azul e assustei quando a porta abriu à minha frente.
Ele fitou-me de cima a baixo e disse com uma voz carregada:
- Você veio - seu sorriso era contagiante.
- Você me chamou - falei e voltei à bancada das pias de frente para o espelho.
Ele sorriu ainda mais, atrás de mim, mostrando seus dentes brancos de porcelana.
- Nunca te vi por aqui... - ele começou e eu pigarreei.
- Clichê isso hein? - falei e ele deixou de sorrir com meu comentário.
Ele aproximou-se de mim e sussurrou no pé do meu ouvido:
- Se quiser, podemos deixar minha frase clichê de lado e partir para algo mais imprevisível, o que acha?
Suas mãos apertaram-se em volta do meu peito. Firmes e instintivamente, saí de dentro de seu apertão fazendo-o se desequilibrar e cair no chão.
O encarei caído no chão sentado, fitando-me enfurecido.
- Você é doido cara? - ele gritou.
O ajudei a se levantar e pedi desculpas por aquilo.
- É reflexo, sabe como é... - falei sem pensar e ele franziu o cenho sem entender.
Olhei para a minha própria roupa e ri.
- Desculpe - falei - é que sou policial.
Ele se afastou de mim, como se eu tivesse falado alguma doença contagiosa. Ele acabou dizendo:
- Nossa, mil perdões... não sabia que...
Não deixei ele terminar, o puxei pelas mãos e o beijei, forte, sem previsões, deixando-o sem palavras e minhas lágrimas caíram juntas, amargas, tentando fazer daquele momento uma pequena vingança, uma retaliação ao meu término.
Deixei que o beijo quente do rapaz fizesse com que minhas dores se esvaíssem, porém elas aumentaram ainda mais e eu passei a chorar de soluçar. O rapaz deixou de me beijar e me encarou, assustado.
- Eu fiz alguma coisa?
Neguei com a cabeça e pus o dedo na boca, pedindo para que ficasse quieto, aproximei-me e continuei com o nosso beijo até as lágrimas deixarem de cair e meus pensamentos voltarem a se organizar outra vez.
- Obrigado - falei, assim que saímos do banheiro.
O rapaz fitou-me sem entender no primeiro momento.
Dei às costas e antes de ir, falei:
- À propósito meu nome é Pedro.
Voltei à festa, indo até Paula que continuava sentada bebendo sua Skol beats.
- Que sorriso é essa? - ela me perguntou com a voz um pouco mole e bastante animada.
- Não é nada, vem vamos dançar! - falei puxando-a para a pista de dança e fazendo-a girar pelo salão, feliz.
Há momentos que temos que deixar que nossa vida nos dê um pouco de espaço, para sermos quem a gente quiser; nem que seja só por um instante... sentirmos uma pausa, de todas as dores, de todas as tristezas... sentir a alma leve junto de amigos. Ver Paula sorrindo enquanto dançávamos era algo reconfortante, por fora seu sorriso me blindava e por dentro olhos azuis me acalmavam... olhos estes, que talvez nunca mais veria.